Desmistificando a lenda de uma alma imortal

14 de dezembro de 2012

O "castigo eterno" de Mateus 25:46


 
Em meu artigo sobre o inferno e o fogo eterno, um leitor chamou atenção a uma outra passagem utilizada pelos imortalistas, que é a de Mateus 25:46. Acredito que essa resposta deveria ser mais ampla do que simplesmente em uma caixa de comentários, por isso decidi passar a mensagem dele com a minha resposta mais completa sobre este tema. Vejamos primeiramente o que me foi perguntado:
 
“Prezado Lucas Banzoli.

Boa noite.

Primeiramente gostaria de parabenizá-lo pela sua colocação sobre a questão da mortalidade da alma. Seus artigos sobre o tema são muito bem fundamentados e coerentes. Poderia me explicar Mateus 25:46, onde é usado a palavra grega aionios, tanto para a palavra castigo quanto para a palavra vida. Se a palavra é entendida como um tempo não eterno, então a vida eterna seria somente por um tempo e não eterna?

Um abraço e felicidades.

Luiz”
 
Resposta – O texto de Mateus 25:46 é um relato das palavras de Jesus, onde ele diz:
 
“E irão eles para o castigo [kolasin] eterno, mas os justos irão para a vida eterna” (Mateus 25:46)
 
Analisando friamente o texto com a ótica imortalista, parece que o sentido da frase de Cristo era colocar os justos em uma vida eterna no Céu e os ímpios sendo torturados eternamente no inferno, contrariando o resto da Bíblia toda (2Pe.2:.6; Sl.37:9; Sl.37:22; Sl.104:35; Is.19:18-20; Sl.145:20; Sl.94:23; Pv.1:29; 1Ts.5:3; Jó 4:9; Sl.1:4-6; Sl.73:17-20; Sl.92:6,7; Sl.94:23; Pv.24:21,22; Is.1:28; Is.16:4,5). Porém, para analisarmos qual é o sentido do “castigo eterno”, empregado por Cristo, primeiramente devemos regressar ao significado literal expressado por Ele.
 
A palavra kolasin empregada por Cristo em Mateus 25:46 diz respeito à punição, e não a tormento. Se Cristo tivesse a intenção de pregar o tormento eterno, Mateus poderia ter perfeitamente empregado a palavra grega basaniso, que significa tortura, dor, tormento. Se Mateus tivesse a intenção de dar a frase tal sentido, ele teria essa opção pronta, a mão, que poderia ter sido perfeitamente utilizada.
 
Contudo, o sentido aqui mencionado é de punição, e não de tormento. A versão King James (considerada a melhor versão de todos os tempos), traz: everlasting punishment” – “punição eterna”.
 
A pergunta que fica agora é: qual é a punição eterna que Cristo mencionou em Mateus 25:46? É de ficar queimando para sempre em um lago de fogo em um sofrimento que não acaba nunca, ou será o fato de serem “eternamente destruídos e banidos da face do Senhor”, como diz o apostolo Paulo em 2ª Tessalonicenses 1:7-10, e não se pode conceber um processo de destruição incompleto que não termina nunca, em um processo eterno e inconclusivo? A resposta é que se trata de destruição com resultados permanentes.
 
Em Hebreus 6:2 o autor fala de “juízo eterno-aionios”. Isso evidentemente não significa que o julgamento é um processo que tem início mas não tem fim, mas sim que este juízo é de resultados irreversíveis. Da mesma maneira, a “punição” eterna que os ímpios sofrerão é uma punição de resultados permanentes. Já vimos também que existem vários relatos bíblicos sobre o “fogo eterno”, mas nenhum deles diz respeito a um processo interminável.
 
Deus disse que o fogo que iria cair sobre Edom “nem de noite nem de dia se apagará; subirá para sempre a sua fumaça; de geração em geração será assolada” (Is.34:9-10), e nem por isso o fogo está queimando literalmente está hoje.  A mesma coisa acontece com os palácios de Jerusalém (Je.17:27) e com a floresta do Neguebe (Ez. 20:47), que seriam atingidos por um fogo que nunca se apaga.
 
Porém, nenhum deles está queimando até hoje. Judas 7 nos diz que o fogo que caiu sobre Sodoma e Gomorra foi um “fogo eterno” (Jd 7), e que serve de tipologia para o futuro dos ímpios. Porém, o fogo que caiu sobre Sodoma e Gomorra não está queimando até hoje.
 
Então, as menções bíblicas acerca de “fogo eterno/castigo eterno” dizem respeito aos efeitos da destruição completa pelo fogo, e não a um processo sem fim. Desta forma, em Mateus 25:46 Cristo estava falando não de um tormento [basaniso] eterno, mas sim de uma punição [kolasin] com efeitos eternos, que consiste no fato de que os ímpios estarão eternamente destruídos e banidos da presença do Senhor, sem herdarem a vida eterna. Em contraste a este fim eterno de existência (que é a punição-kolasin) deles, os justos tem uma vida eterna – pois estes são os únicos que terão um prosseguimento eterno de vida.
 
Portanto, a passagem de Mateus 25:46, dentro de seu devido contexto textual e Escriturístico, nos assegura a antítese de que os justos irão para a vida eterna, mas os ímpios irão para a punição do fogo eterno, que é eterno pelos resultados permanentes da destruição completa.
 
Cristo está estabelecendo a antítese do destino final de salvos e perdidos, o que evidentemente é um destino eterno [irreversível], definitivo para ambos os grupos. A palavra “eterno-aion” está relacionada para ambos os grupos, mas não está igualada em seu sentido pleno e absoluto. Ambos são “eternos”, mas com aplicações diferentes. Para os salvos, a eternidade é no próprio processo; para os perdidos, a eternidade é nos efeitos/consequências do fogo eterno. Como bem observa o erudito Basil Atkinson:
 
“Quando o adjetivo aionios com o sentido de ‘eterno’ é empregado no grego com substantivos de ação faz referência ao resultado da ação, não ao processo. Assim, a frase ‘castigo eterno’ é comparável a ‘eterna redenção’ e ‘salvação eterna’, ambas sentenças bíblicas. Ninguém supõe que estamos sendo redimidos ou sendo salvos para sempre [como um processo]. Fomos redimidos e salvos de uma vez por todas por Cristo, com resultados eternos. Do mesmo modo, os perdidos não estarão passando por um processo de punição para sempre, mas serão punidos uma vez por todas com resultados eternos. Por outro lado, o substantivo ‘vida’ não é um substantivo de ação, mas um que expressa uma condição. Assim, a própria vida é eterna” (Basil Atkinson, Life and Immortality)
 
Antes de concluirmos este artigo, é bom também levarmos em consideração a aplicação que kolasin tinha na época de Cristo. “Kolasin” era uma palavra que tinha costume de uso para “Pena de Morte” (Punição Capital) e, portanto, no versículo citado ele se refere à morte eterna (morte, e não tormento), referindo-se a “segunda morte” (Ap.2:11; Ap.21:8). O Dicionário Internacional de Teologia do NT (pág. 313) declara as seguintes palavras sobre kolasin:
 
“Kolasin = Castigo. Deriva-se de Kolos, ‘mutilar’, ‘cortar fora’; é usado figuradamente para ‘impedir’, ‘restringir’, ‘punir’” [Dicionário Internacional de Teologia do NT]
 
Como vemos, o termo “kolasin” era usado na época de Cristo, nunca para indicar um tormento sem fim, mas sim para acentuar o caráter bíblico do aniquilamento dos ímpios [morte eterna; segunda morte] que serão “mutilados”, “cortados fora” ou “despedaçados”. Essa analogia é feita para ressaltar o aspecto irreversível da destruição completa dos pecadores, mas nunca de um processo de tormento sem fim. Jesus estava acentuando o contraste entre a vida eterna dos justos e a morte eterna dos ímpios, que serão mutilados e despedaçados [figuras de aniquilacionismo], cortados fora do Seu Reino.
 
Que Deus te abençoe.
 
Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli.


-Artigos relacionados:


-Não deixe de acessar meus outros sites:

Apologia Cristã (Artigos de apologética cristã sobre doutrina e moral)
Heresias Católicas (Artigos sobre o Catolicismo Romano)
O Cristianismo em Foco (Reflexões cristãs e estudos bíblicos)
Preterismo em Crise (Refutando o Preterismo Parcial e Completo)
Share:

4 comentários:

  1. PREZADO LUCAS, A PAZ DE CRISTO.

    IRMÃO, ADMIRO VOCÊ E AS REFUTAÇÕES QUE VOCÊ FEZ A RESPEITO DO CATOLICISMO, VOCÊ ATÉ ME ENVIOU UM LIVRO SOBRE PEDRO, TE SOU MUITO GRATO, MAS NÃO CONCORDO COM VOCÊ A RESPEITO DO ANIQUILACIONISMO, POR EXEMPLO: LEMBRE-SE QUE A BESTA E O FALSO PROFETA APÓS MIL ANOS QUANDO O DIABO FOI LANÇADO NO LAGO DE FOGO, ELES (A BESTA E O FALSO PROFETA AINDA ESTAVAM LÁ) NÃO FORAM ANIQUILADOS.

    VEJA A MATÉRIA ABAIXO, NO LINK.
    SEM MAIS, UM ABRAÇO.

    http://apologia7biblica.blogspot.com.br/2015/05/clemente-policarpo-e-inacio-vs-doutrina.html

    ResponderExcluir
  2. Olá, Paulo, a paz.

    O artigo do Itard é cheio de textos isolados e ridiculamente interpretados, os quais ele jamais leu, apenas copiou de algum lugar da internet. Eu refutei ele e mais um outro apologista católico neste artigo:

    http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2015/08/os-pais-da-igreja-contra-imortalidade.html

    Que posteriormente se transformou em um livro de 330 páginas, com centenas de citações patrísticas contra a imortalidade da alma, e com uma refutação completa às objeções ao aniquilacionismo:

    http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2015/08/meu-novo-livro-os-pais-da-igreja-contra.html

    Vale lembrar que esse Itard é o mesmo embusteiro que já foi refutado e desmascarado neste artigo:

    http://heresiascatolicas.blogspot.com.br/2015/05/desmascarando-itard-e-sua-ridicula.html

    Sobre seu argumento, o texto de Apocalipse 20:10 não diz que a besta e o falso profeta continuavam vivos no lago de fogo, apenas diz que eles haviam sido lançados lá:

    “O diabo, que as enganava, foi lançado no lago de fogo que arde com enxofre, onde já haviam sido lançados a besta e o falso profeta. Eles serão atormentados dia e noite, para todo o sempre” (cf. Apocalipse 20:10 - NVI)

    O texto não diz que que a besta e o falso profeta estavam ainda com vida no lago de fogo, apenas diz que eles haviam sido lançados lá antes do milênio, ou seja, que o diabo teria o mesmo destino que a besta e o falso profeta já tiveram.

    Eu recomendo fortemente que leia meus livros sobre o tema, principalmente o apêndice do último, porque todas essas objeções ao aniquilacionismo eu já li bilhões e bilhões de vezes, são todas muito fracas e repetitivas, e às vezes é cansativo ter que estar sempre refutando as mesmas coisas. Leia pelo menos o apêndice do meu livro "Os Pais da Igreja contra a Imortalidade da Alma", e depois você pode elaborar uma refutação ao mesmo caso queira.

    Abraços.


    ResponderExcluir
  3. Eu realmente não queria acreditar no tormento eterno e fiquei muito feliz ao ler os artigos do Desvendando a lenda. Hoje eu me sinto aliviada por não ter que aceitar a ideia do fogo eterno. Obrigada, Lucas <3

    ResponderExcluir
  4. Gostaria que a verdade alcançasse o a todos e que Roma não tivesse colocado tanto paganismo na santa palavra de Deus!Isso hoje causa uma divisão tremenda em nosso meio cristão é triste e o mais triste é deixar de buscar o conhecimento necessário se cremos no Deus de Israel dos povos Hebreus então temos que analisar as escrituras nos originais destes povos. Roma matou a Cristo e poderíamos confiar 100% nas modificações pagãs introduzidas a palavra do Senhor? Deus abençoe a todos e nos liberte do paganismo a cada dia.

    ResponderExcluir

A sua mensagem passará por moderação e em seguida será exibida ao público.

Curta no Facebook

Receba os novos posts por e-mail

Comentários Recentes

Labels