31 de agosto de 2013

Estudo completo sobre o significado de Hades e Sheol


Antes da mitologia pagã se infiltrar dentro dos moldes do Cristianismo, Sheol era puramente sepultura. É claro que a sua aplicação varia de passagem a passagem, mas nunca no sentido mitológico de “habitação de espíritos”. O Sheol bíblico é um local de silêncio, e não de gritaria do inferno:

Os mortos, que descem à terra do silêncio, não louvam a Deus, o Senhor” (cf. Salmos 115:17)

“Se o Senhor não fora em meu auxílio, já a minha alma habitaria no lugar do silêncio(cf. Salmos 94:17)

Mais claro ainda é o Salmo 94:17, que diz de forma enfática que o que habita no silêncio é a própria alma, derrubando a toda e qualquer tentativa de vulgarizar o termo como se fosse “silêncio somente para o corpo”. O salmista sabia muito bem que o local para onde iria após a morte seria de silêncio, e não de louvores entre os salvos ou de gritaria do inferno. Convenhamos: qual é o lugar do “silêncio” que o salmista fala? Claramente a sepultura. O local para onde a alma vai após a morte (cf. Sl.94:17), em estado de total inconsciência (cf. Ec.9:5,6; Ec.9:10; Sl.146:4; Sl.6:5; Sl.30:9; Sl.88:12). Outra prova clara de que os hebreus do Antigo Testamento sabiam muito bem que Sheol não era inferno, mas sim sepultura, é Jacó enterrando o seu filho José:

“E levantaram-se todos os seus filhos e todas as suas filhas, para o consolarem; ele, porém, recusou ser consolado, e disse: Na verdade, com choro hei de descer para meu filho até o Sheol. Assim o chorou seu pai” (cf. Gênesis 37:35)

Jacó evidentemente ainda não sabia que na mitologia pagã grega (de imortalidade da alma) o Hades ficava no centro da Terra. Jacó foi cavando até o inferno para enterrar o seu filho José? Não, Jacó sabia muito bem que Sheol era puramente sepultura. Ele sabia disso porque essa era a crença da época, o sentido puro de Sheol.

Ademais, Jacó foi enterrar o corpo morto de José e não uma alma ou espírito incorpóreo. Sheol não é um local de espíritos sem corpo, mas sim de corpos mortos. Sheol é claramente identificado como sendo sepultura, o pó da terra. Outras inúmeras passagens nos trazem um sentido completo de que Sheol não era habitação consciente de espíritos desencarnados. Alguns exemplos, por exemplo, podem ser encontrados em Jó e em Salmos:

Porventura não são poucos os meus dias? Cessa, pois, e deixa-me, para que por um pouco eu tome alento. Antes que eu vá para o lugar de que não voltarei, à terra da escuridão e da sombra da morte” (cf. Jó 10:20,21)

Será que fazes milagres em favor dos mortos? Será que eles se levantam e te louvam? Será que no Sheol ainda se fala do teu amor? Será que naquele lugar de destruição se fala da tua fidelidade? Será que naquela escuridão são vistos os teus milagres? Será que na terra do esquecimento se pode ver a tua fidelidade?” (cf. Salmos 88:10-12).

Como podemos ver, a terra era claramente descrita como uma “escuridão”. Ora, se o Hades é um local de tormento, com fogo e tudo, então o fogo remeteria à luminosidade. O local não seria nem lugar de “escuridão” e muito menos lugar de “densas trevas”. Onde há fogo, há luz. Essa descrição do Sheol bíblico anula a concepção pagã em um Hades cheio de fogo e espíritos vivos ali queimando. O Salmo 49:14 também deixa claro que até as ovelhas vão para o Sheol na morte:

“Como ovelhas são postas na sepultura [Sheol, no original hebraico]...” (cf. Salmos 49:14)

É óbvio que o Sheol é apenas o pó da terra, o destino de todas as criaturas viventes. Jó também nos esclarece que o Sheol bíblico está longe de ser morada de espíritos queimando em meio às chamas, ao dizer que naquele lugar ele “já agora repousaria tranquilo; dormiria, e, então, haveria para mim descanso... Ali, os maus cessam de perturbar, e, ali, repousam os cansados; os prisioneiros também desfrutam sossego, já não ouvem mais os gritos do feitor de escravos(cf. Jó 3:13,17,18). Já não se ouve mais gritos, algo inconcebível caso Jó tivesse a ideia de que aquele local era um lugar de tormento ou de gritos de espíritos em meio às chamas.

No livro de Eclesiastes também lemos:

“Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças; porque no além [Sheol], para onde tu vais, não há obra, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma” (cf. Eclesiastes 9:10)

A palavra usada em Eclesiastes 9:10 com relação ao Sheol é que não há chokmah [inteligência, razão]. Morre o homem e o ser racional se vai. Não há inteligência, não há consciência. Biblicamente, Sheol não é, e nunca foi, uma morada de espíritos vivos e conscientes em alegria ou em tormento com fogo. Como se não fosse suficientemente claro o fato de que no Sheol não há obra, nem projeto, nem conhecimento, e nem sabedoria, o salmista afirma que “quem morreu não se lembra de ti; e no Sheol quem te louvará?(cf. Sl.6:5). É evidente que no Sheol não se pode louvar a Deus. Fica a pergunta: que tipo de “espírito” que é salvo e vai para este lugar sem poder louvar a Deus?

O único argumento utilizado pelos imortalistas na tentativa de contradizer o fato bíblico de que o Sheol é o equivalente à sepultura é que os hebreus tinham palavra específica para “sepultura”, que é qéver, então Sheol deve significar algo diferente disso. Isso, por si só, não significa nada, pois no hebraico e no grego há diversas palavras sinônimas, que possuem a mesma aplicação prática. Na própria língua portuguesa, aplicamos exterminar e aniquilar com o mesmo sentido, bem como adversário e antagonista, oposição e antítese, enfermo e doente, desagradar e descontentar, futuro e porvir, enorme e imenso, imparcial e neutro, dentre tantas outras palavras sinônimas. Diante disso, por que Sheol e sepultura não podem ser palavras sinônimas, assim como sepultura e túmulo?

Em segundo lugar, existe uma diferença básica entre Sheol e qéver. Hades ou Sheol não se refere a um único sepulcro (gr.: táfos), nem a um único túmulo (gr.: mnéma), nem a um único túmulo memorial (gr.: mnemeíon), mas à sepultura comum da humanidade, onde os mortos e enterrados não são vistos. Assim, vemos que Sheol é aplicado quando a referência é à sepultura comum da humanidade (em um sentido coletivo), enquanto qéver se refere ao um único sepulcro (em um sentido individual).

Sheol é o sentido mais amplo da sepultura, tendo a mesma aplicação prática desta, pois quem está na sepultura está no Sheol, da mesma forma que quem está em São Paulo está no Brasil. Sheol é o “mundo dos mortos”, não como um local de habitação de espíritos conscientes, mas de almas mortas (cf. Nm.31:19; 35:15,30; Js.20:3,9; Gn.37:21; Dt.19:6,11; Jr.40:14,15; Jz.16:30; Nm.23:10), em local de total silêncio (cf. Sl.115:17; Sl.94:17), e em estado de total inconsciência (cf. Sl.146:4; Sl.6:5; Ec.9:5,6; Ec.9:10).

No caso da revolta de Coré, por exemplo, relatada em Números 16, a terra “abriu a sua boca” e os seus seguidores “desceram vivos ao Sheol” (cf. Nm.16:30; Nm.16:33). Seria extremamente inimaginável pensarmos que a terra abriu a boca para eles caírem até o centro da terra onde ficaria o Sheol, sendo que no meio dessa queda os seus corpos foram transformando-se automaticamente em espíritos desencarnados. A evidência aqui é tão forte que os próprios imortalistas admitem que Sheol aqui significa o pó da terra, corpos físicos sendo esmagados pela força da natureza através da ação divina (embora eles afirmem que este caso é uma “exceção”, o que vemos que não – é a regra!).

Obviamente que o que aconteceu realmente é que a terra abriu a boca e os tragou enquanto ainda estavam vivos, descendo para a “cova” (ou “pó”), o que mostra a total correspondência entre estes dois termos. Mais forte ainda do que isso é o paralelismo evidente que constatamos em Jó: “Descerá ela às portas do Sheol? Desceremos juntos ao pó?” (cf. Jó 17:16). Aqui vemos Jó fazendo o uso de um paralelismo entre o “Sheol” e o “pó”. Paralelismo é a sucessão de partes do discurso que tem entre si uma relação de similaridade de conteúdo; um encadeamento de funções sintáticas idênticas de valores iguais. Jó identifica o Sheol como sendo a mesma coisa que o pó da terra, ao relacionar ambos na mesma sentença expondo tal paralelismo. Após afirmar que ele desceria ao Sheol, afirma categoricamente que este lugar é o pó (cf. Jó 17:16).

Ainda que os escritores do Antigo Testamento falassem constantemente em Sheol, desacreditavam completamente em qualquer estado intermediário. Talvez seja por isso que o apóstolo Paulo, em suas epístolas, não tenha mencionado absolutamente nenhuma vez a palavra “Hades” – o termo já estava paganizado. Aliás, nem Paulo, nem Tiago, nem Pedro, nem Judas, e nem o desconhecido autor de Hebreus: todos pareciam desconhecer tal palavra, não sendo mencionada em parte nenhuma de suas epístolas. Só há uma única razão mais provável para isso, que é exatamente não querer confundir os leitores dualistas com o sentido pagão de Hades, já em vigor em sua época.

O Sheol também é caracterizado como “a terra das trevas e da sombra da morte” (cf. Jó 10:21,22), onde os mortos nunca mais vêem a luz (cf. Sl.49:20; 88:13). É também, como vimos, a “região do silêncio”, e não de gritaria do inferno ou de louvores do Paraíso (cf. Sl. 94:17; 115:17), para onde caminha a alma rumo ao local do silêncio (cf. Sl.94:17). A ideia de descanso ou sono no Sheol fica evidente no livro de Jó que clama em meio a seus tormentos físicos: “Por que não morri eu na madre? Por que não expirei ao sair dela? [...] Porque já agora repousaria tranquilo; dormiria, e então haveria para mim descanso [...] Ali os maus cessam de perturbar, e ali repousam os cansados” (cf. Jó 3:11,13,17).

No Salmo 141:7 também fica mais do que evidente que Sheol é claramente identificado como sepultura: “Ainda que sejam espalhados os meus ossos à boca da sepultura [Sheol] quando se lavra e sulca a terra”. Até os ossos desciam para o Sheol! Se Sheol fosse um local de morada de “espíritos”, o salmista certamente mencionaria isso, mas além negar tal fato ele acentua que são os ossos que descem ao Sheol, o que nos revela que é um local não de “espíritos”, mas de corpos mortos, que jazem na sepultura.

Um dos textos mais claros de que o Sheol é uma referência à sepultura é o de Isaías 14:11, que diz: “Sua soberba foi lançada na sepultura [Sheol], junto com o som das suas liras; sua cama é de larvas, sua coberta, de vermes”. O detalhe é que o texto se refere a ele estar sendo comido de larvas e coberto de vermes, o que nos mostra a total correspondência entre o Sheol e o túmulo, abaixo da terra, e de quem estar lá ser um corpo morto, um cadáver, e não alguma alma ou espírito incorpóreo.

De igual modo, Davi adverte seu filho Salomão com relação a Simei: Mas, agora, não o considere inocente. Você é um homem sábio e saberá o que fazer com ele; apesar de ele já ser idoso, faça-o descer ensangüentado à sepultura [Sheol] (cf. 1Rs.2:9). Novamente, o original hebraico verte a palavra “Sheol”, e não “sepultura” como a maioria dos tradutores preferiram traduzir. Aqui vemos que alguma pessoa pode descer ensanguetada ao Sheol, o que nos mostra claramente que o Sheol não é uma morada de espíritos incorpóreos, mas sim a própria sepultura, para o qual é o destino dos corpos que morreram (espírito não sangra!).

Por isso, até mesmo o sangue das pessoas descem ao Sheol [sepultura]. Isso explica o porquê que em absolutamente nenhuma parte das Escrituras é mencionado espírito-ruach/pneuma no Sheol/Hades. Este nunca foi algum tipo de “morada de espíritos”! Fica mais do que claro que nenhum escritor bíblico pensava em Sheol como uma morada consciente de espíritos desencarnados, como um local de tormento ou suplício. Se fosse esse o sentido primário de Sheol, então veríamos uma infinidade de passagens bíblicas que relatam tal fato, o que não é verdade. Aliás, nem sequer o elemento “fogo” aparece relacionado em qualquer descrição bíblica do Sheol. Que maneira “estranha” de descrever o inferno!

Portanto, vemos que o Sheol bíblico não é um lugar onde Caim está queimando há seis mil anos até hoje, mas sim uma figura da sepultura, o lugar para onde parte a alma após a morte (cf. Is.38:17; Sl.94:17; Jó 33:18; Jó 33:22; Jó 33:28; Jó 33:30). Sheol é sepulcro, pó, profundezas da terra, morte, vazio, túmulo. Jamais foi morada de espíritos em plena atividade e consciência, em regozijo ou em tormento. Nunca é mencionado tormento no Sheol. Na parábola do rico e do Lázaro, o que ocorreu foi uma metaforização e personificação dos personagens (Abraão, Lázaro, o rico) bem como do próprio cenário onde se passava a parábola (Sheol), que não exige meios literais. (e cuja análise completa você pode conferir clicando aqui).

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (apologiacrista.com)

Extraído de meu livro: “A Lenda da Imortalidade da Alma”


-Artigos relacionados:


-Não deixe de acessar meus outros sites:

Apologia Cristã (Artigos de apologética cristã sobre doutrina e moral)
Heresias Católicas (Artigos sobre o Catolicismo Romano)
O Cristianismo em Foco (Reflexões cristãs e estudos bíblicos)
Preterismo em Crise (Refutando o Preterismo Parcial e Completo)



[1] TABOR, James. What the Bible says about Death, Afterlife, and the Future. Disponível em: <http://clas-pages.uncc.edu/james-tabor/>. Acesso em: 15/08/2013.

[2] HARRIS, Stephen L. Understanding the Bible: the 6th Edition (McGraw Hill 2002) p. 436.

12 comentários:

Giuliano Pietoso disse...

Muito bom o artigo. Se não me engano a Dawn Ades tem um livro muito bacana sobre essa temática, uma pena que não estou em casa agora se não colocaria o link aqui, mas de qualquer forma parabéns pelo artigo!!

Lucas Banzoli disse...

Obrigado, depois se for possível me informe sobre o livro deste autor, estou curioso. Um abraço!

# DeusEmQuestão disse...

Parte 1 - Lucas há muito tempo deixei a crença na imortalidade da alma e do tormento eterno. Contudo, ainda me resta algumas dúvidas que carrego comigo. Vou dividir esta questão em duas partes ou três. A primeira diz respeito ao Sheol. Estou ciente que Sheol em muitas passagens parece ser sinônimo de sepultura, isso eu não tenho dúvidas. Mas em algumas passagens, isso parece não ser tão claro. Por exemplo, em Gênesis 37:35 Jacó, ao saber da morte de José, diz:

"Certamente eu tenho que ir até o Sheol em luto por meu filho." (V. 35, lit. Heb.)

Ora, sabemos que José havia sido despedaçado e devorado por animais segundo a mentira dos seus irmãos e na compreensão de Jacó isso era verdade e certamente José não teria um enterro e nem túmulo, o que não faria nenhum sentido uma vez que ele fora devorado por animais, logo, isso excluiu qualquer sepultura. Agora, se Sheol aqui neste verso refere-se ao túmulo de José, que sentido tem em Jacó dizer que iria até lá uma vez que José não teve túmulo, a não ser a barriga dos animais? Outro ponto: Jacó fala em "ir até o sheol em luto". Algumas traduções dizem "ir até a sepultura em luto". Mas isso não faz sentido já que José não tinha sepultura. Jacó não poderia está pensando em ser enterrado numa vala comum com seu filho morto uma vez que José não tinha túmulo, a não ser a barriga dos animais. Ou será que Jacó pretendia ir encontrar José na barriga dos animais? A tradução mais literal do texto hebraico diz:

"eu tenho que ir em luto até lá baixo no Sheol".

Se o sheol aqui se refere tão somente a um lugar onde a pessoa não mais existe mais, que sentido tem que dizer que irá até l´em luto? Certamente Jacó pretendia encontrar José no sheol? Mas o sheol aqui não pode ser o túmulo de José, pois em ele não havia sido enterrado.

# DeusEmQuestão disse...

Parte 2 - Outro ponto. Em Isaías 14, falando da queda do rei da Babilônia o v. 15 diz que o rei caído seria levado até o sheol, nas partes mais baixas do abismo (bor). Algumas traduções dizem "serás lançado à sepultura". Mas esta tradução não faz sentido pra mim. O problema é que enquanto este verso e os anteriores dizem que ele cairia no sheol, o v.19 já diz que ele seria lançado para fora da sepultura (kever) e o v.20 diz que ele não se reuniria com os outros na sepultura (kever). Agora, se neste contexto "sheol e kever" são apenas sinônimos paralelos, porque em determinada parte diz que o rei seria levado ao sheol e os antigos reis das nações o receberiam e na outra parte diz que ele não teria sepultura e não se reuniria com eles? Outro ponto é que é impossível negar os reflexos das crenças dos vizinhos do antigo Israel neste contexto de Isaías 14, pois naquela época uma pessoa, ainda mais um rei, que não tivesse túmulo era considerado maldito e acreditava-se que este vagaria pela terra sem descanso. O V.9 fala que os mortos despertariam para receber o rei caído. No hebraico a palavra para "mortos" aqui é rephaim onde, segundo os dicionários que consultei, o termo é sinônimo de "fantasmas". O erudito e teólogo Schwally (Leben Nach Dem Tode, pg. 64) afirma que os povos hebreus utilizaram o termo Refa’im para designar “Fantasmas". No livro “Posição Entre os deuses cananeus: El, Baal, e os refains” (Monografias Harvard semita) Conrad E. L'Heureux diz a mesma coisa sobre este termo. Inscrições de sarcófagos de reis fenícios fazem alusão aos Rafa/Refains designando-os como "fantasmas". Agora, veja este comentário interessante:

“Refiam: em vários textos bíblicos (por exemplo, Isaías 26,14: Prov 2,18.) [são] inoperantes "sombras" (NVI) que habitam o submundo; em outros textos, uma raça de gigantes temíveis que viviam em partes da Palestina e transjordânia (por exemplo, Dt 2,20, 3.11, 13; Js. 12:4; 13,12). Estudiosos, no passado, consideravam estes dois significados distintos, mas textos de Ugarit * sugerem que eles podem estar relacionados. Em Ugarit, Refaim, maioria das vezes, refere-se a membros da aristocracia (militar, político ou religioso) que, como resultado de seu status enquanto vivo, alcançam algum tipo de super-homem, mesmo semidivino, de pé no submundo. A etimologia provável de Refaim, do verbo que significa "curar", também sugere que estes Refaim mortos foram pensados para ter poder para ajudar os vivos. Refains, termo na Bíblia também podem se referir àqueles entre os falecidos (por exemplo, os gigantes ancestrais), que demonstrou talento extraordinário durante a vida e continuam a exercer algum tipo de poder após a morte. Notável a este respeito é Isaías 14:9, onde o Refains do submundo é descritos como aqueles "que eram líderes da terra" e os "que eram reis das nações." [The Oxford Companion Bible, página 647, de 1993, Metzger e Coogan, Oxford University Press].

# DeusEmQuestão disse...

Parte 3 - Tenho estudado vários artigos em pdf do Phd em línguas semiticas, Michael S. Heiser, que embora diga entafaticamente que o antigo Isarel não tinha uma concepção platonica da alma como nós imaginamos, certamente algumas passagens sugere uma noção similiar, ou seja, que a pessoa, ao morrer, ia para um submundo "escuro e abaixo" ( sem fogo e enxofre é claro) e lá sobrevia apenas como uma "sombra imponente e sem qualquer espectativa de retorno". O tema é muito complicado e sugiro você ver os artigos aqui antes de me responder (http://michaelsheiser.com/TheNakedBible/category/realm-of-the-dead/sheol/). Você já leu o livro "Teologia do Antigo Testamento, Ralph L. Smith"? Ele fala a mesma coisa e tem um capítulo inteiro dedica a está questão. Como eu disse, eu não sou imortalista e tenho muitas razões para não crer em tormento eterno, mas quanto aos pontos que acabei mencionar, ainda resta dúvida. Tem outras, mas por enquanto basta.

Lucas Banzoli disse...

Olá, DeusEmRazão, você pode me informar seu e-mail para eu responder por lá? É melhor conversar por lá do que aqui pelos comments do artigo. Abraços.

Lucas Banzoli disse...

Sobre o significado de Sheol, o seu equívoco está em pensar que o Sheol tem sempre um mesmo e único significado imutável, como sendo a sepultura e nada mais. Esta concepção é errônea. Muitas vezes o Sheol é apenas uma figura da morte, e por isto todos estão juntos no Sheol (i.e, todos estão na morte). Até a Bíblia de Estudos NVI, de linha explícita e declaradamente imortalista, afirma o seguinte na nota de rodapé dos textos onde Sheol aparece no AT:

“Esta palavra também pode ser traduzida por PROFUNDEZAS, PÓ OU MORTE”

Portanto, a objeção de que Jacó não esperava encontrar o corpo de José é inválida, pois em certo sentido até os que tiveram os corpos cremados estão no Sheol, ou seja, estão mortos, todos juntos. Quando Jacó diz que “iria ao Sheol em luto” ele não estava dizendo que depois estivesse dentro do Sheol estaria ainda em luto, mas sim que quando ele desceria ao Sheol (morresse) ele estaria em luto.

O que o imortalista precisa provar para fundamentar suas teses seria pegar um texto onde o Sheol do AT tem como significado único possível um “reino onde as almas fora do corpo vão depois da morte”, e embora eu já tinha lido a Bíblia dezenas e dezenas de vezes NUNCA encontrei algo sequer parecido com isso.

A descrição de Isaías 14 é claramente figurada, basta analisar o contexto para perceber isso. O texto em questão diz:

“Nas profundezas o Sheol está todo agitado para recebê-lo quando chegar. Por sua causa ele desperta os espíritos dos mortos, todos os governantes da terra. Ele os faz levantar-se dos seus tronos, todos os reis dos povos” (Isaías 14:9)

O que dizem os versos anteriores e posteriores neste caso?

(1) O verso anterior diz que os pinheiros e os cedros do Líbano (árvores) iriam se alegrar e falar: “Agora que você foi derrubado, nenhum lenhador vem derrubar-nos!” (v.8).

(2) Os reis da terra não poderiam estar literalmente no Sheol, pois o texto diz que eles se “levantariam de seus tronos” (v.9), algo que só acontece enquanto o rei ainda vive.

(3) O verso 11 diz que “sua soberba foi lançada na sepultura, junto com o som das suas liras; sua cama é de larvas, sua coberta, de vermes”.

(4) O verso 12 em diante passa a dizer que ele “caiu dos céus” (v.12), que foi “atirado à terra” (v.12), que tentava subir ao céu e colocar seu trono acima das estrelas de Deus (v.13) e que subiria “mais alto que as mais altas nuvens” (v.14).

Diante disso, o mais sensato é tomar o verso 9 literalmente? Não!

Sobre a crença dos judeus, é necessário distinguir entre o que os judeus criam ANTES da diáspora e o que eles passaram a crer DEPOIS da diáspora. Antes do período intertestamentário os judeus não criam em nenhuma imortalidade da alma.

A grandemente respeitada Enciclopédia Judaica, em seu artigo referente à “Imortalidade da Alma”, declara explicitamente:

"A crença de que a alma continua existindo após a decomposição do corpo é uma especulação... que não é ensinada expressamente na Sagrada Escritura... A crença na imortalidade da alma chegou aos judeus quando eles tiveram contato com o pensamento grego e principalmente através da filosofia de Platão (427 - 347 a.C.), seu principal expoente, que chegou a esse entendimento por meio dos mistérios órficos e eleusianos, que na Babilônia e no Egito se encontravam estranhamente misturados" (Enciclopédia Judaica, 1941, vol. 6, "A Imortalidade da Alma", pp. 564, 566)

A Enciclopédia Bíblica Padrão Internacional também revela que os israelitas não criam na imortalidade da alma antes de serem tardiamente influenciados por Platão:

"Quase sempre somos mais ou menos influenciados pela ideia grega platônica, que diz que o corpo morre, mas a alma é imortal. Tal ideia é totalmente contrária à consciência israelita e não é encontrada em nenhum lugar do Antigo Testamento" (Enciclopédia Bíblica Padrão Internacional, 1960, vol. 2, "Morte", p. 812)

Lucas Banzoli disse...

O Dr. Samuelle Bacchiocchi, PhD pela Pontifícia Universidade Gregoriana (católica) e autor do estudo mais aprofundado sobre a constituição da natureza humana já escrito até hoje, acrescenta:

“Durante esse período inter-testamentário, o povo judeu esteve exposto, tanto em seu lar, na Palestina, quanto na diáspora (dispersão), à cultura e filosofias helenísticas (gregas) de grande influência. O impacto do helenismo sobre o judaísmo é evidente em muitas áreas, inclusive na adoção do dualismo grego por algumas obras literárias judaicas produzidas nessa época” (BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição: Uma abordagem bíblica sobre a natureza e o destino eterno. Unaspress, 1ª edição, 2007)

Como sabemos, essa época da diáspora judaica se deu exatamente no período helenístico, onde os gregos impunham sua cultura aos povos conquistados:

“Designa-se por período helenístico (do grego, hellenizein – ‘falar grego’, ‘viver como os gregos’) o período da história da Grécia e de parte do Oriente Médio compreendido entre a morte de Alexandre o Grande em 323 a.C e a anexação da península grega e ilhas por Roma em 146 a.C. Caracterizou-se pela difusão da civilização grega numa vasta área que se estendia do mar Mediterrâneo oriental à Ásia central. De modo geral, o helenismo foi a concretização de um ideal de Alexandre: o de levar e difundir a cultura grega aos territórios que conquistava” (Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Período_helenístico)

Durante o período helenista foram fundadas várias cidades de cultura grega, e dentre elas destaca-se Alexandria, que era uma espécie de “centro do helenismo”, com forte concentração da cultura grega. Muitos judeus foram dispersos para essa cidade. Um dos judeus helenizados que começaram a propagar fortemente a imortalidade da alma foi Filon, sobre quem a Enciclopédia Judaica afirma:

“Não há referências diretas na Bíblia para a origem da alma, sua natureza e sua relação com o corpo, e essas perguntas deram espaço para as especulações da escola judaica de Alexandria, especialmente de Filon, o judeu, que procurou na interpretação alegórica de textos bíblicos a confirmação de seu sistema psicológico. Nos três termos (‘ruach’, ‘nephesh’ e ‘neshamah’) Filon viu a corroboração da visão platônica de que a alma humana é tripartite (τριμεής), tendo uma parte racional, uma segunda mais espiritual, e uma terceira como sendo a sede dos desejos” (Enciclopédia Judaica, 1941, “Alma")

Lucas Banzoli disse...

Essa crença grega foi originalmente rejeitada pelos judeus da palestina, como atesta a Enciclopédia Judaica citando o Talmude:

“Essa crença foi rejeitada pelos estudiosos do Talmude, que ensinaram que o corpo está em um estado de perfeita pureza (Ber. 10a;. Mek 43b), e está destinado herdar sua morada celestial (...) Os rabinos afirmaram que o corpo não é a prisão da alma, mas, ao contrário, o seu meio de desenvolvimento e aperfeiçoamento” (Enciclopédia Judaica, 1941, “Alma")

Por isso mesmo, nada é dito na Enciclopédia Judaica sobre os judeus crerem que a alma é um elemento imaterial e imortal antes dessa helenização com as teses gregas. Ao contrário, ela diz claramente:

“Uma vez que a alma é concebida como sendo apenas a respiração (‘nephesh’, ‘neshamah’, comp. ‘anima’), e inseparavelmente ligada, senão identificada, com o sangue da vida (Gn 9:4; 4:11; Lv 17:11), nenhuma substância real pode ser atribuída a ela. Assim, quando o espírito ou sopro de Deus (‘Nishmat’ ou ‘Ruach Hayyim’), que é o que se acredita que mantém corpo e alma juntos, tanto dos homens como dos animais (Gn 2:7; 6:17; 7:22; Jó 27:3), é retirado (Sl 146:4) ou retorna a Deus (Ec 12:7; Jó 34:14), a alma desce ao Sheol ou Hades, para lá ter uma sombria existência, sem vida e consciência (Jó 14:21; Sl 6:5; 115:7; Is 38:19; Ec 9:5; 9:10). A crença em uma vida contínua da alma, que é a base da primitiva adoração aos antepassados e dos ritos de necromancia, praticados também pelo antigo Israel (1Sm 28:13; Is 8:19), foi desencorajada e suprimida pelo profeta como antagônica à crença em YHWH, o Deus da vida, o Governador do Céu e da Terra” (Enciclopédia Judaica, 1941, vol. 6, "A Imortalidade da Alma", pp. 564-566)

E sobre o significado original de “espírito” entre os judeus da época do Antigo Testamento, ela declara:

“O relato mosaico da criação do homem fala de um espírito ou fôlego com que foi dotado por seu Criador (Gn 2:7), mas esse espírito é concebido como sendo inseparavelmente ligado, senão totalmente identificado, com o sangue da vida (Gn 9:4; 4:11; Lv 17:11). Somente através do contato dos judeus com o pensamento persa e grego surgiu a ideia de uma alma desencarnada, tendo sua própria individualidade” (Enciclopédia Judaica, 1941, “Alma")

Abraços.

# DeusEmQuestão disse...


Parte 2 - Claro, eu interpreto o paralelismo com "Morte" apenas denotando um aspecto do Sheol, ou seja, por ser o "lugar dos mortos". Sheol também não pode ser visto com um "dilúvio, águas ou ondas" apenas porque tais termos estão em paralelo com Sheol. Outro ponto, eu não acho que a questão de Jacó seja invalida, pois não faz sentido dizer que Sheol transmite o sentido de "inexistência" ou apenas "condição" e esperar que a pessoa pudesse encontrar a outra por lá, ainda mais de luto (chorando). Ou muito menos que um morto pudesse está de luto. Sim, uma pessoa pode morrer em tristeza (luto), mas não ir ao mundo dos mortos em tristeza (luto). Jacó não disse simplesmente "irei ao Sheol em luto". O hebraico transmite novamente a ideia de "descer", "vir para baixo", pois Jacó disse:

"... Porque em luto eu descerei (Yarad) para junto de meu filho no Sheol." - Gn. 37.35.

Novamente a ideia de Sheol ser pensado como uma "região abaixo", nas "profundezas", e não simplesmente uma "condição de morte e inexistência".

# DeusEmQuestão disse...

Parte 3 - Quanto Isaías 14 eu já sabia que você iria apontar v.8 - "os cedros que se alegram". Mas figura de linguagem não elimina o fato de que tal possa está retratando uma realidade física, ou, a "alegria das nações" que foram oprimidas pela Babilônia. No salmo 1 os jutos são comprado a "árvores". Em Ezequiel 31 a Assíria é simbolicamente um "cedro" de "ramos formosos" e as outras nações são "árvores" e "pássaros" que se abrigavam em sua sombra. Ou seja, essa tática não cola, pois a questão torna-se mais problemática quando se analisa nos Léxicos o significa do termo "mortos" do verso 9 que denota claramente a ideia de "fantasma", "espírito" de uma existência fraca. Outro ponto, você diz que os reis que se levantam dos tronos não poderia está no Sheol. Mas espere um pouco, essa parte é claramente uma sequencia, pois os mortos despertam (os antigos reis das nações) e então eles dizem: "Tu também estás fraco como nós, e te tornaste semelhante a nós". Agora eu pergunto: "em que aspecto o rei estava se tornando como eles"? Vivos? Não! O restante do verso diz CLARAMENTE mencionado sua queda no Sheol. Outro ponto, na concepção Cananeia e fenícia os rephaim eram os fantasmas dos antigos aristocratas, reis e poderosos que haviam descido para o submundo, portanto, faz todo o sentido eles estarem presente na profecia de Isaías para receberem o rei que havia se tornado, assim como eles, fraco e imponente no submundo, uma mera sombra nas profundezas do abismo.

Então, minhas dúvidas ainda permanecem sobre o assunto.

mateus rodrigues disse...

Olá "# DeusEmQuestão" bom, lí só a parte 1 dos seus comentários e quero contar uma esperiência minha que é o seguinte: quando eu tinha uns 13 à 14 anos de idade não tinha um bom relacionamento com minha mãe e com meu pai, então um dia meu pai me deu uma enorme bronca sem um motivo real para isso, com isso eu fiquei muito depressivo nesse dia, e minha prima que era casada estava dando uma festinha atoa daí minha irmã me levou para lá com o namorado dela e lá eu comecei a beber muita bebida alcoólica (em razão da bronca de meu pai) meio disfarçado pra minha irmã não me impedir mas foi muita mesmo e rápido tipo uns 1,5 litros 40% álcool em menos de uma hora sem jantar, daí deu umas tretas e me levaram pro hospital já desacordado, e enquanto estava desacordado eu me ví numa seguinte situação: eu estava no meio do nada num lugar escuro totalmente escuro preto tudo eu não sentia meu corpo não tinha inteligencia nem reação não tinha memória tinha quase nada só tinha duas coisas imutáveis praticamente sem valor naquela situação que eram a visão da escuridão (que vale absurdamente nada) e o pensamento único inegável imutável e etc de enxergar a saída daquele lugar só esse pensamento, nem como fui chegar alí, nem oque seria ou haveria na saída daquele lugar só as exatas palavras "achar a saída" e eu não estava sepultado eu estava medicado no hospital (eu tinha uma deficiência tão forte no figado que nem podia tomar leite e comer produtor com conservantes tipo embutido (salsicha mortadela etc) daí eu metí álcool sem dó e deu nisso) não sei se estava vivo ou morto mas estou vivo agora e faz muito tempo, e naquela procura pela saída (que pareceu uma eternidade) eu derrepente ví o teto do hospital, olhei pro lado e ví outras pessoas em macas e alí embaixo, minha mãe chorando em uma cadeirinha daí ela falou comigo eu respondí e ela chamou a enfermeira acho que pra dizer que eu estava vivo, a enfermeira mexeu no meu medicamento falou alguma coisa e saiu daí a história se desenrrolou eu fui pra casa, isso deve ter acontecido numa noite de sábado para domingo, daí fui na igreja na próxima terça ou sexta-feira não tenho certeza do dia mas não demorou muito, e lá na igreja minha mãe me deu a bíblia e como já fiz varias vezes escolhí um número abrí a bíblia em qualquer página e contei os versículos do inicio da página até o número que escolhí (exemplo: o primeiro versículo da página é o 20 e eu escolhí número 15 daí eu conto 20, 21, 22, ...,35, eu leio o versículo 35, porque minha mãe me ensinou que quando agente tem que ouvir alguma coisa tipo um conselho algo que DEUS queira falar pra gente nós fazemos isso para saber oque é) daí eu lí o seguinte: "Se não fosse a misericórdia de DEUS, minha alma ainda estaria no silêncio." e eu lebrei imediatamente daquele incidente alcoólico, e não marquei o versículo para estudar depois sobre ele, e hoje deu uma vontade imensa de achar onde na bíblia ele está escrito, e procurando na internet achei esse site e lí ele lí o seu primeiro comentário e decidí escrever isso pra tentar faciliar a compreensão desse conteúdo, pra mim ficou muito compreensivo por causa da minha experiencia pessoal e fiquei curioso pra aprender mais! até a próxima se houver uma! que DEUS abençoe você e todos nós! amém!

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